A morte da menina Maitê, de apenas nove meses de idade, após atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Lençóis Paulista (SP), desencadeou uma série de questionamentos sobre a conduta médica adotada, a capacidade de resposta do sistema de saúde municipal e os limites entre erro individual e falha estrutural. A criança, moradora da cidade e integrante da família Alcântara, foi atendida, liberada mesmo com exames alterados, retornou em estado grave no dia seguinte e acabou morrendo após ser transferida para o Hospital das Clínicas (HC) de Bauru, onde não resistiu às complicações de uma pneumonia considerada avançada.
Segundo relatos da família, Maitê foi levada à UPA por vários dias consecutivos, apresentando sintomas persistentes, sem que houvesse diagnóstico conclusivo ou intervenção compatível com a gravidade do quadro. Em uma das passagens pela unidade, mesmo após a realização de exames de sangue que indicavam alterações, a menina teria sido liberada por uma médica, com a orientação de que os sintomas seriam decorrentes de gases, decisão que hoje está no centro da denúncia de negligência.
Em entrevista e publicações nas redes sociais, Yara Alcântara, tia da criança, afirmou que a liberação ocorreu quando a bebê já apresentava sinais que, na avaliação da família, exigiam investigação mais profunda e acompanhamento rigoroso. No dia seguinte, com a piora evidente do estado de saúde, Maitê retornou à UPA, foi atendida por outro médico, que reconheceu a gravidade do quadro, diagnosticou pneumonia grave e determinou a transferência imediata para o Hospital das Clínicas de Bauru. Apesar da rapidez no encaminhamento naquele momento, a doença já havia evoluído de forma agressiva, e a criança não resistiu.
A sequência dos fatos levantou uma crítica que vai além do atendimento individual e atinge o próprio funcionamento do sistema. Para a família, a necessidade de transferência não pode ser tratada como solução automática quando ela ocorre após uma liberação considerada equivocada e um diagnóstico tardio, sobretudo em se tratando de uma criança de poucos meses de vida. A pergunta central que permanece sem resposta é se a evolução fatal poderia ter sido evitada caso o atendimento inicial tivesse sido mais cauteloso, criterioso e alinhado aos protocolos pediátricos de urgência.
Diante da repercussão, a Prefeitura de Lençóis Paulista, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, divulgou nota oficial manifestando profundo pesar pela morte da criança e informando a abertura de sindicância interna para apurar, com rigor e responsabilidade, as condutas técnicas adotadas durante o atendimento prestado à menina na UPA. A administração municipal afirmou ainda que aguarda a conclusão da apuração para se manifestar sobre eventuais responsabilidades.
Até o momento, porém, não há informação sobre abertura de investigação criminal, registro de boletim de ocorrência ou encaminhamento do caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM-SP), o que amplia a cobrança da família por respostas concretas e medidas que vão além do procedimento administrativo interno.
Para os familiares, a morte de Maitê não pode ser tratada como fatalidade inevitável, mas como consequência de uma sequência de decisões que falharam em reconhecer a urgência do quadro. A família Alcântara afirma que o luto vem acompanhado da exigência de esclarecimentos e mudanças, para que outras crianças não passem pela mesma situação.
O caso segue sob apuração administrativa, enquanto a cidade enfrenta mais um episódio que expõe fragilidades no atendimento de urgência e reacende o debate sobre responsabilidade, estrutura e preparo da rede pública de saúde.
