Uma adolescente que convive com epidermólise bolhosa há 17 anos em Olímpia (SP) sofre para conseguir que o governo forneça os curativos essenciais para o tratamento das feridas que se formam no corpo dela.
Elena Kessia Fávero foi diagnosticada com a doença nos primeiros dias de vida, quando começaram a surgir alguns machucados na pele e nas mucosas. As lesões são geradas pelo organismo dela e surgem de forma inesperada, provocando infecções, dores intensas e até dificuldade de locomoção e limitação. Entenda melhor abaixo.
Atualmente, a adolescente vive sob os cuidados da avó materna, Marli Perpétua dos Santos Teixeira, de 55 anos, que fica impossibilitada de trabalhar devido ao problema da neta. A renda per capita da família é baixa, o que impossibilita o pagamento das despesas com medicação, curativos e atendimento médico especializado.
Ao g1, Elena contou que precisa estar atenta aos próprios movimentos para evitar dores mais severas.
“Conviver com a epidermólise bolhosa não é fácil. Desde que nasci, minha pele é extremamente frágil, como se fosse feita de papel. Às vezes, basta um toque leve, uma roupa mal colocada ou até o vento mais forte para que as bolhas e feridas apareçam. Cada passo que dou precisa ser pensado. Vestir uma camiseta, escovar os dentes ou dar um simples abraço pode ser doloroso”, explica.
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Elena Kessia Fávero é moradora de Olímpia (SP) e tem epidermólise bolhosa — Foto: Arquivo pessoal
Ação judicial
O curativo prescrito pelos médicos, por exemplo, custa R$ 30 mil mensais à família. Diante dessa situação, em novembro de 2024, a avó de Elena conseguiu que o governo custeasse esse suplemento por meio de uma ação judicial.
No entanto, segundo o advogado Yuri Crepaldi, mesmo com a determinação, constantemente Marli tem dificuldade para ter acesso ao benefício.
“Todas as ações atualmente se encontram transitadas em julgado, contudo, mesmo assim, ocorre o descumprimento por parte do Município e do Estado. As justificativas são sempre baseadas em déficit orçamentário”, explica o advogado.
Ao longo dos anos, a adolescente foi obrigada a travar diversas batalhas judiciais contra o Município e o Governo de São Paulo para conseguir o tratamento adequado.
“A sensação que tenho é de travar uma batalha invencível, diante de uma guerra que parece interminável, pois a situação da Elena escancara o nítido descaso por parte do poder público com pessoas que são diagnosticadas com doenças raras, e ocupam uma posição de vulnerabilidade social e econômica. Ela convive com fortes dores, dificuldades de locomoção, dificuldades para tomar banho por causa das graves feridas no corpo, depressão, restrições para exposição solar e restrições alimentares”, finaliza o advogado, que há oito anos acompanha o caso da olimpiense.
O g1 procurou os governos municipal e estadual. Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde informou que o processo mencionado pela reportagem tramita em segredo de Justiça, e esclareceu que Elena possui demandas ativas para fornecimento de medicamentos, suplementos e dietas enterais.
Já a Prefeitura de Olímpia relatou que os medicamentos e insumos de ação judicial, que são de responsabilidade do Município, estão sendo devidamente entregues à paciente. Em relação ao curativo, a prefeitura disse que o fornecimento é de responsabilidade do Estado.
Devido à dificuldade de acesso ao curativo, constantemente a família faz campanhas nas redes sociais e pede ajuda aos moradores da cidade.
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Elena Kessia Fávero é moradora de Olímpia (SP) e tem epidermólise bolhosa — Foto: Arquivo pessoal
A doença e o preconceito
A epidermólise bolhosa é uma doença genética rara que fragiliza a pele, fazendo com que surjam feridas e bolhas ao menor atrito.
A doença leva esse nome por causa das feridas, que podem aparecer devido à falta de adesão entre as células da epiderme, a camada mais superficial da pele. Ela é causada por uma alteração da proteína responsável pela ligação dessas camadas.
Segundo o Ministério da Saúde, apenas quatro em cada um milhão de crianças nascem com essas lesões.
Para a avó de Elena, mesmo que a disputa judicial já esteja em tese vencida, a batalha contra as dores emocionais da neta é incansável. Conviver com o preconceito por parte da sociedade também está entre os desafios.
“Muitas pessoas com crianças pequenas se afastam com medo de [a doença] ser contagiosa. Sinto que as pessoas, quando passam por ela, não conseguem disfarçar os olhares. Nessas horas, Elena esconde seu rosto atrás de um capuz, atrás dos cabelos”, explica.
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Elena Kessia Fávero e a avó em Olímpia (SP) — Foto: Arquivo pessoal
As crianças com epidermólise bolhosa são conhecidas como “crianças borboletas”, porque a pele delas se assemelha às asas de uma borboleta em razão da fragilidade.
Estima-se que cerca de 500 mil pessoas em todo o mundo tenham a doença. Ela pode se manifestar de três formas: Epidermólise Bolhosa Simples (EBS), Epidermólise Bolhosa Juncional (EBJ), Epidermólise Bolhosa Distrófica (EBD).
Por causa das feridas, é comum que o paciente tenha dificuldades para crescer e ganhar peso.
“Meu corpo tem cicatrizes e cada uma delas carrega uma história de resistência. Já me senti diferente, já chorei em silêncio por desejar apenas viver sem medo de me machucar”, confessa a adolescente.
O diagnóstico normalmente é feito por meio de uma biópsia de pele ou coleta de sangue ou saliva. Os principais cuidados envolvem limpeza das feridas, curativos adequados (não aderentes à pele), não exposição ao sol e controle da frequência dos banhos.
Em meio às limitações, Elena diz se sentir grata pela vida e afirma que a cada dia aprende uma nova lição com a doença.
“Eu não desisto! Aprendi a valorizar cada momento bom, cada dia sem dor, cada gesto de afeto. Minha pele pode ser frágil, mas meu coração é forte. E, mesmo vivendo com epidermólise bolhosa, eu continuo aqui, com coragem, esperança e a vontade de mostrar ao mundo que a beleza também está na luta silenciosa de quem resiste todos os dias”, finaliza.
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Elena Kessia Fávero e a avó em Olímpia (SP) — Foto: Arquivo pessoal
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